A cidade e as serras - a casa do espiritismo

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A cidade e as serras - a casa do espiritismo

em toda ela nem um dos costumados aspectos que fizessem reviver a velha

camaradagem com o meu Príncipe. Logo na antecâmara grandes lonas cobriam

as tapeçarias heróicas, e igual lona escondia os estofos das cadeiras e dos

muros, e as largas estantes de ébano da Biblioteca, onde os trinta mil volumes,

nobremente enfileirados como doutores num Concílio, pareciam separados do

mundo pôr aquele pano que sobre eles descera depois de finda a comédia da

sua força e da sua autoridade. No gabinete de Jacinto, de sobre a mesa de

escrita, desaparecera aquela confusão de instrumentozinhos, de que eu perdera

já a memória; e só a Mecânica suntuosa, pôr sobre peanhas e pedestais,

recentemente espanejada, reluzia, com as suas engrenagens, tubos, rodas,

rigidezes de metais, numa frieza inerte, na inatividade definitiva das coisas

desusadas, como já dispostas num Museu, para exemplificar a instrumentação

caduca dum mundo passado. Tentei mover o telefone, que se não moveu; a

mola da eletricidade não acendeu nenhum lume: todas as forças universais

tinham abandonado o serviço do 202, como servos despedidos. E então,

passeando através das salas, realmente me pareceu que percorria um museu de

antigüidades; e que mais tarde outros homens, com uma compreensão mais

pura e exata da vida e da Felicidade, percorreriam, como eu, longas salas,

atulhadas com os instrumentos da supercivilização, e, como eu, encolheriam

desdenhosamente os ombros ante a grande Ilusão que findara, agora para

sempre inútil, arrumada como um lixo histórico, guardado debaixo da lona.

Quando saí do 202 tomei um fiacre, subi ao Bosque de Bolonha. E apenas

rolara momentos pela Avenida das Acácias, no silêncio decoroso, unicamente

cortado pelo tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia,

comecei a reconhecer as velhas figuras, sempre com o mesmo sorriso, o mesmo

pó-de-arroz, as mesmas pálpebras amortecidas, os mesmos olhos farejantes, a

mesma imobilidade de cera! O romancista da Couraça passou numa vitória,

fixou em mim o monóculo defumado, mas permaneceu indiferente. Os bandós

negros de Madame Verghane, tapando-lhe as orelhas, pareciam ainda mais

furiosamente negros entre a harmonia de todo o branco que a vestia, chapéu,

plumas, flores, rendas e corpete, onde o seu peito imenso se empolava como

uma onda. No passeio, sob as Acácias, espapado em duas cadeiras, o diretor do

Boulevard mamava o resto de seu charuto. E num landau, Madame de Trèves

continuava o seu sorriso de há cinco anos, com duas pregazinhas mais moles

aos cantos dos lábios secos.

Abalei para o Grand-Hotel, bocejando – como outrora Jacinto. E findei o

meu dia de Paris, no Teatro das Variedades, estonteado com uma comédia

muito fina, muito aclamada, toda faiscante do mais vivo parisianismo, em que

todo o enredo se enrodilhava à volta duma Cama, onde alternadamente se

espojavam mulheres em camisa, sujeitos gordos em ceroulas, um coronel com

papas de linhaça nas nádegas, cozinheiras de meias de seda bordadas, e ainda

mais gente, ruidosa e saltitante, a esfuziar de cio e de pilhéria. Tomei um chá

melancólico no Julien, no meio de um áspero e lúgubre namoro de prostitutas,

fariscando a presa. Em duas delas, de pele oleosa e cobreada, olhos oblíquos,

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