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O Dinossauro - Ordem Livre

O Dinossauro - Ordem Livre

87econômicas mútuas,

87econômicas mútuas, criadas pela sociedade. "Qu'on admire tant qu'on voudra la sociétéhumaine, il n'en sera pas moins vrai qu'elle porte necéssairement les hommes à s'entre-hairà proportion que leurs intérêts se croisent." Essa ideia extraordinária estava fadada aconduzir ao conceito de Marx de uma generalizada luta de classes como inerente aodesenvolvimento da economia numa sociedade civilizada. Notai a antítese com as ideias deHobbes e, coincidentemente, com as da maior parte dos liberais utilitaristas, para quem ointeresse egoísta forma a sociedade, já que seu propósito é suprimir as lutas selvagens doestado de natureza.Trata-se de um fato conhecido que a liberdade e a igualdade são noçõesincompatíveis, dada a desigualdade natural dos homens ao nascer. Tocqueville foi o homemque melhor se ocupou dessa incompatibilidade. A igualdade só pode, portanto, ser impostapela lei, em detrimento da liberdade. No Contrato Social, ele declarou muito correta eclaramente: "Cest précisément parce que la force des choses tend toujours à détruirel'égalité, que la force de la législation doit toujours tendre à la maintenir". Como todos ossocialistas modernos, há poucas dúvidas quanto ao fato de que Rousseau estava preparado asacrificar o direito de propriedade em benefício do conceito abstrato de igualdade. "Loinsde vouloir que l'État soit pauvre, je voudrais, au contraire, qu'il eut tout, et que chacunn'eût sa part aux biens communs qu'en proportion de ses services." Trata-se, nada maisnada menos, da socialização de toda a fortuna pública e dos meios de produção.Ao invés de associar o conceito de Estado e as bases do Contrato Social a umaimagem paterna, de Lei e Razão, como fez Hobbes, Rousseau enfatizou o grupo comodependente de um arquétipo naturalmente feminino, alimentado, não pelo intelecto, maspelo sentimento. Ele descreveu a substância do grupo como um corpo místico. O grupoteria uma realidade própria e um poder absoluto ao qual está presa a personalidade doscidadãos: "Le Pacte social donne au corps politique un pouvoir absolu sur tous sesmembres". Seguindo nessa linha de pensamento, ele alcançou a imanentizaçâo esecularização final do símbolo da Ecclesia. Como Maquiavel e Hobbes, e nesse particulartambém como Calvino, Rousseau condenou a doutrina tradicional do Ocidente cristão que,por quase dois mil anos e não obstante conflitos tremendos, havia regulamentado asrespectivas esferas de influência da Igreja e do Estado, o que quer dizer, das coisasespirituais e das coisas temporais. Criticando os "deveres contraditórios", deplorou aexistência de "dois chefes, duas pátrias" e aconselhou ser o único remédio "reunir as duascabeças da águia, tudo reduzindo à unidade política". Ao destruir a Igreja cristã, Rousseauesperava criar uma nova "religião do cidadão". O Cristianismo é um mal — declarou —

88porque, "longe de acorrentar o coração dos cidadãos ao Estado, teve o efeito de desviá-losde todas as coisas terrenas. Nada conheço de mais contrário ao espírito social".Em suma, Rousseau consignou ao novo culto do Leviatã, que rapidamentesubstituía o Cristianismo como religião universal, o elemento afetivo que lhe faltava.Exprimiu grande surpresa quando o Contrato Social foi condenado pelo arcebispo de Parise protestou, com indignação ofendida. Entretanto, ele próprio, nesse mesmo livro, propôs asmais severas sanções para todos os não-crentes. Qualquer cidadão refratário que não sesubmetesse à nova Religião Civil deveria ser severamente punido e banido. Na verdade, umnovo sistema inquisitorial de controle do pensamento ia ser inaugurado e a censura hojeexercida pelos patrulheiros da intelectualidade de esquerda, nos meios acadêmicos e naimprensa, encontra suas raízes no pensamento paradoxal de Rousseau.Em La nouvelle Héloise encontramos novamente Rousseau estendendo-se, comdeleite, sobre os métodos de doutrinação que se tornaram conspícuos na época moderna.Converte em heróis o informante secreto e o agente provocador. Joga com o vocabulário doque Orwell chamou de Newspeak de uma maneira que faria o grande Chefão babar-se deinveja. As pessoas que aparecem nessa novela são condicionadas a "querer aquilo que sãoobrigados a fazer" ("en sorte qu'ils pensent vouloir ce qu'on les oblige de faire"). Astécnicas behaviouristas ou de psicologia do comportamento, inventadas por Pavlov eaperfeiçoadas por Skinner, já são sugeridas com incrível precisão. No Émile, a educação éinduzida, de maneira que o aluno não deva fazer senão aquilo que quer, mas de tal modoque não deve querer senão aquilo que se quer que ele faça ("ne doit faire que ce qu'il veut,mais il ne doit vouloir que ce que vous voulez qu'il fasse"). Depois de o jovem cidadão tersido dénaturé e sofrer o que se chama lavagem de crânio, chega o momento de ser formadode acordo com os novos princípios, de maneira que deseje fazer exatamente aquilo que oreflexo condicionado pavloviano, dirigido por seus guardiães, preparou-o para querer.Foi a obra de Rousseau, em suma, um dos mais importantes elos na cadeia deideias que nos prendem ao "modernismo" do século XX, pois resultou na submissão totaldo pensamento político ao malfadado incubo ideológico da psique coletiva. Suas ideiaslevaram duzentos anos para amadurecer. E fomos deixados com a dura alternativa dedecidir se ele é, meramente, um excêntrico poeta neurótico, favorecido por acaso comalgumas inspirações idílicas concernentes à beleza da natureza e à necessidade de reduziralguns dos artifícios obnóxios da civilização — ou, então, se é um pensador cujoromantismo apenas dissimula as doutrinas mais maléficas que a filosofia política jamaisgerou.

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